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Há filmes que nos obrigam a rever a forma como olhamos para o mundo. Ontem saí do cinema com essa sensação depois de assistir ao aguardado longa-metragem 9 Luas (Espanha, 2026), escrito e dirigido pela cineasta venezuelana Patricia Ortega. Uma verdadeira preciosidade.

O filme aborda temas extremamente atuais, acompanhados por uma paleta de cores generosa que se revela com um refinamento admirável na tela grande. O corpo, a transexualidade, a identidade, a masculinidade, a paternidade e, acima de tudo, a Família, sentam-se à mesa (literalmente) de forma sensível, simples e profundamente humana.

O longa proporciona momentos de gargalhadas diante das expressões dos familiares ao se depararem, pela primeira vez, com as realidades de uma nova geração. Ao mesmo tempo, oferece instantes em que sofremos ao lado de Angelito (Zack Gómez), que, felizmente, decide não abrir mão de sua verdadeira essência e iniciar sua transição. O que ele não esperava era engravidar: sim, no masculino.

O que mais me comoveu foi perceber que o filme, ao não se limitar à narrativa de uma única experiência, jamais transforma seus personagens em símbolos, mas em pessoas. Com suas contradições, dúvidas, humor, amor e medo, torna-se muito fácil reconhecer algo de nós mesmos neles, ainda que nossas vidas sejam muito diferentes.

Além disso, por meio do processo de transição e da paternidade de Angelito, o roteiro traz à tona questões fundamentais para compreender a diversidade de gênero. Em especial, evidencia os privilégios adquiridos por uma pessoa ao passar a ser socialmente lida como um homem (branco) em uma sociedade sexista e binária.

Uma obra encantadora, daquelas que seria um pecado esperar chegar ao streaming para assistir.

Um abraço e até breve,

Alan Leites

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Imagem cedida pela Caramel Films. Fotografia: © Julio Vergne.
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